Caxumba é papo de adulto

Essa doença não ficou no passado nem privilegia as crianças. E atenção: em gente grande ela é até mais perigosa.

caxumba

Hipócrates, o pai da medicina, relatou, no século 5 a.C., um mal que deixava suas vítimas com papo de pelicano, febre alta e dor ao salivar e mastigar. Sim, o sábio grego já estava descrevendo a caxumba. Mas, apesar do registro tão antigo, ela não é um assunto velho. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, o número de infectados na região cresceu ligeiramente. Foram 150 casos em 2011, sem nenhum óbito, ante 163 em 2012, com duas mortes. Além disso, em 2013 foram identificados surtos na Austrália, no Paquistão e nos Estados Unidos.

Nos séculos passados, a caxumba era quase uma exclusividade dos pequenos. Isso começou a mudar só no final dos anos 1960, quando foi desenvolvida uma vacina contra o paramyxovírus, o causador da doença — hoje, ela compõe a tríplice viral, que também protege contra sarampo e rubéola. Assim, nas décadas seguintes, a maioria das crianças foi imunizada, diminuindo a incidência da encrenca nessa turma. Acontece que, embora a vacinação na infância costume levantar uma barreira contra a chateação na fase adulta, às vezes seu efeito se esvai com o tempo, principalmente
se a aplicação é inadequada. Daí o porquê de o paramyxovírus passar a acometer o pessoal que deixou a escola faz tempo. “Esse vírus, vale lembrar, é altamente transmissível pelas vias aéreas”, diz Gilberto Turcato Junior, infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Ou seja, basta espirrar ou tossir para que ele se espalhe.

“Doenças que habitualmente incidem em crianças, quando surgem em outras faixas etárias, tendem a ser mais intensas”, alerta Celso Granato, chefe do Laboratório de Virologia da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp. A medicina não matou essa charada, mas se acredita que as defesas de um corpo maduro, ao enfrentarem a infecção, acabem desencadeando efeitos mais nocivos do que benéficos. O diagnóstico tardio, por negligência ou desconhecimento dos sintomas, ajudaria a agravar a situação.

Afinal, qual é o plano de ataque do paramyxovírus? Depois de entrar no corpo pelo nariz ou pela boca, ele se multiplica e, aí, cai na corrente sanguínea, onde começa sua viagem — o destino primário são as glândulas salivares. O organismo, por sua vez, não baixa a guarda e ativa as células de defesa, que criam uma reação inflamatória. O inchaço decorrente do combate surge de um só lado da mandíbula ou dos dois, e regride espontaneamente, de uma a três semanas após o início da infecção. Mas o paramyxovírus não conhece fronteiras: chega a afetar lugares como os órgãos reprodutores, as mamas, o pâncreas, o cérebro, o sistema auditivo e até o coração.

Ameaças diversas
Entre os efeitos comuns do vírus está a orquite, a inflamação nos testículos, que dá as caras em 50% dos adolescentes com caxumba e em 20% dos adultos infectados. Mais uma vez, pode se manifestar uni ou bilateralmente. “Uma das possíveis consequências, ainda que rara, é a esterilidade”, ressalta Granato.

As mulheres também sofrem com o pequeno adversário. Chamada de ooforite, a inflamação de um ou de ambos os ovários ocorre em 5% dos episódios no período após a puberdade, mas dificilmente isso progride para a infertilidade. Acima dos 15 anos, o índice de mastite — a inflamação das mamas — é de 15%. Em tempo: se apenas um dos lados é comprometido, o outro não fica protegido em uma eventual segunda infecção pelo paramyxovírus.

A caxumba chega até a comprometer as meninges, membranas que revestem a massa cinzenta e a medula espinal. Quando isso acontece, 60% dos pacientes reclamam de rigidez na nuca. “Mais comum no sexo masculino, a meningite viral é autolimitada”, explica Maria Claudia Stockler de Almeida, infectologista do Hospital das Clínicas de São Paulo. Isso quer dizer que o próprio organismo geralmente consegue se livrar do perigo. Agora, existem situações em que a meningite foge do controle e põe em risco a vida do enfermo. Outra razão para acompanhar sua evolução de perto, sempre orientado por um especialista.

O tratamento clássico da caxumba é realizado com analgésicos, antitérmicos e repouso. Indivíduos que tomam medicamentos anticoagulantes, como aqueles à base de ácido acetilsalicílico, merecem atenção redobrada. Isso porque o vírus golpeia as plaquetas do sangue, células que auxiliam na coagulação, e, em conjunto com a ação dessas drogas, provocaria sangramentos.

Se o quadro é grave — e em especial quando aparecem alterações neurológicas —, os médicos optam por remédios mais fortes. “A ideia é evitar um processo autoimune e, ao mesmo tempo, manter a capacidade de o organismo combater a doença”, esclarece Raquel Muarrek, infectologista do Hospital e Maternidde São Luiz, na capital paulista.

Para fugir disso tudo, confira sua carteira de vacinação. Se não tem uma nem sequer sabe quais injeções recebeu, vá direto para o consultório e confira com o médico se precisa se imunizar. “Duas semanas após a aplicação da vacina tríplice viral, você já terá produzido quantidade suficiente de anticorpos contra a caxumba”, aponta Janete Kamikawa, pediatra e infectologista do Fleury Medicina Diagnóstica, em São Paulo. Está aí uma solução fácil para escapar de um oponente que, acredite, não liga para a sua idade.

Futuras mamães, cuidado!
Durante a gravidez, sobretudo no primeiro trimestre, a caxumba acarreta risco de aborto espontâneo. Por outro lado, não há evidências de que ela, por si só, culmine em malformação congênita. Só um alerta: gestantes não vacinadas na infância estão proibidas de tirar o atraso. Mulheres nem deveriam engravidar nos três meses seguintes à imunização.

Uma blindagem eficaz
O Sistema Único de Saúde (SUS) prevê duas aplicações da vacina tríplice viral: uma no primeiro ano de vida e outra entre os 4 e os 6 anos. Se você tiver pulado uma dessas etapas, o risco de sofrer com caxumba quando mais velho sobe. De acordo com o Ministério da Saúde, mulheres entre 12 e 49 anos e homens de até 39 anos sem prova de imunização podem ser vacinados. Converse com seu médico.

Fonte: http://saude.abril.com.br/


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